"São como cristal, as palavras / Algumas, um punhal,/ Um incêndio./ Outras, orvalho apenas." Eugénio de Andrade
domingo, 2 de maio de 2010
Neste dia da Mãe...
Palavras para a Minha Mãe
mãe, tenho pena. esperei sempre que entendesses
as palavras que nunca disse e os gestos que nunca fiz.
sei hoje que apenas esperei, mãe, e esperar não é suficiente.
pelas palavras que nunca disse, pelos gestos que me pediste
tanto e eu nunca fui capaz de fazer, quero pedir-te
desculpa, mãe, e sei que pedir desculpa não é suficiente.
às vezes, quero dizer-te tantas coisas que não consigo,
a fotografia em que estou ao teu colo é a fotografia
mais bonita que tenho, gosto de quando estás feliz.
lê isto: mãe, amo-te.
eu sei e tu sabes que poderei sempre fingir que não
escrevi estas palavras, sim, mãe, hei-de fingir que
não escrevi estas palavras, e tu hás-de fingir que não
as leste, somos assim, mãe, mas eu sei e tu sabes.
José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"
quarta-feira, 21 de abril de 2010
Texas - "the lone star state"
Enquanto lá estive, investiguei um pouco mais sobre este lendário 28º estado dos USA, um estado que esteve sob o domínio espanhol e depois mexicano, acabando integrado nesta potência de 50 estados. Este estado, que vai buscar o seu nome à palavra índia "tejas", que signifca "amigo", tem Austin como capital desde 1845 (depois de uma disputa com Houston), tendo 268.581 milhas quadradas, sendo tão grande como 10 outros estados dos EUA juntos (a saber: Maine, New Hampshire, Vermont, Massachussets, Connecticut, Rhode Island, New York, Pennsylvania, Ohio e North Carolina). Em 2006, tinha 23.507.783 residentes e cerca de 85% da sua população vivia em cidades. Entre muitas outras curiosidades, que me levariam a escrever um post interminável (sobretudo porque gosto muito destas coisas), no Texas há montanhas, planícies, costa marítima, pradarias, florestas, pântanos e paisagens vulcânicas, dividindo-se nas seguintes regiões "turísticas" (chamemos-lhe assim) - Hill Country, Panhandle Plains, Big Bend Country, Gulf Coast, Piney Woods, Prairies and Lakes e South Texas Plains (não traduzo, porque acho que perderia o sentido).
É conhecido pelo "lone star state", sendo possível encontrar esta sua imagem de marca por todo o lado...
A bandeira do Texas está por todo o lado, bem como a dos EUA...
Mais algumas curiosidades são o facto do Texas ter como lema a amizade, o seu maior mamífero ser o "longhorn" (que é também símbolo da Universidade do Texas), o desporto mais característico ser o rodeo e prato típico o chili.
Austin, no Hill Country, serviu-me de cartão de visita. Lá há um magnífico Capitólio, onde está o retrato do dito cujo que foi governador do Estado e, depois, para mal dos nossos pecados Presidente dos EUA...
Tem também a sede da magnífica Universidade do Texas...
Austin tem também muita gente simpática ("Howdy"), cruzamos olhares com alguém na rua e sorriem-nos, no supermercado os operadores de caixa perguntam-nos como nos correu o dia, as paisagens são magníficas, não há rotundas, mas cruzamentos onde todos param e passam à sua vez, sem confusão, os peões passam tranquila e com confiança nas passadeiras. É até uma cidade um pouco provinciana (mas à escala americana, não portuguesa), porque imagino que em Nova Iorque, Dallas, Los Angeles, não seja bem assim.
Se me perguntarem...
... do que gostei mais - da simpatia e civismo dos habitantes de Austin e do verde, o imenso verde, que se completa com o rio Colorado.
... do que gostei menos - a comida, óptima à partida, mas estragada pelos molhos que fartam instantaneamente, o café (terrível!) e aquela estranha sensação de que naquele país é crime beber bebidas alcoólicas (nas ruas há avisos de que é proibido beber álcool na via pública), mas é permitido andar armado.
Muito, mas muito mais haveria a dizer sobre o Texas e Austin, mas, por agora fico-me por aqui. Voltarei para escrever sobre a frase que mais me ocorreu nesta viagem - "isto é como nos filmes!". Mas terá que ficar para outro dia, porque os meus dedos já reclamam no teclado e os meus olhos ameaçam fechar-se sem cerimónias.
Para terminar, deixo uma frase que descobri num guia para turistas que me parece ilustrar o que é o Texas: "The Lone Star State gets much of its uniqueness from its beautiful mix of people. Indeed it is great blend of cultures that give Texas its lively personality. You can hear it in the music, taste it in the food, sample it at the festivals and see it in the architecture - Texans are a colorful bunch."
quinta-feira, 8 de abril de 2010
Howdy! From Austin, Texas, to the world!
A vida tem destas coisas, se me dissessem há um ano atrás que em Abril de 2010 estaria a passar uns dias em Austin, Texas, EUA, eu diria que seria muito improvável. Pois, mas é onde estou neste momento. A vida dá muitas voltas e um familiar meu, por razões profissionais, veio viver para Austin por tempo indeterminado e cá estou eu a visitá-lo.
terça-feira, 30 de março de 2010
Ainda a Escola...
Ao ver o Prós e Contras de hoje sobre "Quem manda na Escola?", ocorre-me que há responsabilidade em todas as partes (professores, alunos, pais, psicólogos, políticos...sociedade). A escola é uma incubadora da sociedade e o problema é mesmo esse, a sociedade está doente.
Embora haja dias em que é muito difícil "viver" numa escola, é essa ainda a minha segunda casa, ser professora é ainda a minha vocação. Nas escolas há também alunos que pensam e têm opinião sobre as coisas - concorde-se ou não com as suas ideias, Pedro Feijó, da Associação de Estudantes da Escola Secundária de Camões, é um exemplo, um bom exemplo disso mesmo.
Numa das minhas Direcções de Turma deste ano, um aluno portou-se mal, mesmo mal, e como consequência teve um dia de suspensão e um projecto de trabalho comunitário: no dia de suspensão, foi a uma instituição de idosos, acompanhado de uma professora, conhecer a instituição e delinear com os responsáveis as tarefas a desenvolver nos 4 dias de férias da Páscoa que cumprirá nessa instituição. Hoje foi o primeiro dia e correu lindamente... A Escola é também isto - os actos têm consequências, punitivas, mas também de cidadania.
sábado, 20 de março de 2010
Limpar Portugal... lado a lado
A ideia surgiu na Estónia em 2007 e, em Maio de 2008, cerca de 50 mil voluntários recolheram cerca de 10 mil toneladas de lixo. Em Julho de 2009, Nuno Mendes, Paulo Torres e Rui Marinho abraçaram esta ideia e, com o alto patrocínio da Presidência da República, aí estiveram milhares de voluntários no terreno, a limpar Portugal. Devido ao mau tempo, talvez não tenham estado os 100 mil voluntários inscritos, mas, ainda assim, os resistentes foram, de certeza, alguns milhares e o que fizeram, fizeram com verdadeiro empenho.
O tempo estava mau, houve desistências (havia 24 inscritos pela nossa escola e apareceram 11), mas os que ficámos (professores, alunos e um psicólogo) entregámo-nos à tarefa de alma e coração... e com boa disposição!
Ali para os lados de Santa Cruz, varremos um pinhal, estrategicamente, como numa batida, recolhendo os mais variados detritos. Descobrimos que os portugueses são... muito desleixados, para não usar outras palavras mais feias que nos foram ocorrendo. Carregámos lixo e mais lixo, sujámo-nos da cabeça aos pés, ficámos exaustos, mas também rimos e brincámos, descobrimos mais sobre nós próprios e uns sobre os outros, lado a lado.
Foi uma boa experiência, diferente na forma, mas semelhante a tantas outras em que temos participado nesta escola, lado a lado, alunos, professores e funcionários. Afinal, nem tudo está mal nas escolas portuguesas, os alunos e os professores não estão todos e não estão sempre em lados opostos das barricadas. Nos tempos que correm é importante dizer isto.
Nós, na ESCO, fomos limpar Portugal... e reforçar laços que nos fazem crescer, a todos, e nos tornam melhores cidadãos. ...Além disso, fomos zelar pelo presente e pelo futuro de todos nós. Valeu a pena!
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Tudo muda de repente
No Carnaval, aqui por Torres Vedras, as pessoas transfiguram-se. Assim, que passa o Natal, começam a pensar no Carnaval. Neste período de 3 a 4 dias a alegria reina, apesar de tudo. Para mim, que sou alfacinha, é interessante olhar à volta e ver, com olhos de forasteira, os sorrisos nos rostos e a alegria na alma. Respeitáveis chefes de família transformam-se em orgulhosas matrafonas, selectas mães de família viram odaliscas e pop stars, adolescentes tresloucados escolhem as máscaras mais bizarras, grupos de casados e de solteiros, no feminino e no masculino, dançam, bebem, saltam e pulam noite fora. Só vendo e vivendo dá para perceber.
É realmente quase tudo genuinamente português, os carros alegóricos, os cabeçudos, os reis (que são um rei e uma rainha, mas ambos homens), mas... a música é brasileira. O ritmo do samba entra no sangue e, faça chuva ou faça sol, a energia apodera-se dos corpos e ninguém consegue ficar parado. Do corso escolar (que este ano foi cancelado devido ao mau tempo, mas contaria com cerca de 8000 alunos das diversas escolas do concelho), ao corso trapalhão, passando pelos corsos diurnos para turista ver, os torreenses de gema não param, encontram força nem sei bem onde. Eu que não gostava nada de Carnaval, já que para mim era sinónimo de partidas palermas, ovos e farinha a voar, aprendi a gostar deste Carnaval e dou por mim a pensar que é pena o espírito dos portugueses não ser mais carnavalesco todo o ano, certamente seriamos bem mais felizes.
Na Madeira, o Carnaval também é festa. Este ano lá estava Alberto João Jardim de novo no desfile, alegre e pronto a dar as suas ferroadas cá ao "contenente", mas.... eis que chega a tempestade e a pérola do Atlântico é tomada por uma torrente de lama, que, encosta abaixo, sem dó nem piedade, leva tudo à frente. E assim nos lembramos que tudo muda de repente.
...Mas se calhar esta é mais uma razão para pensarmos que devemos desfrutar dos bons momentos enquanto os temos. A vida tem que ser vivida com alegria, porque nunca sabemos quando pode mudar. Deviamos ter dentro de nós um bocadinho de espírito carnavalesco, aquele que os nossos irmãos brasileiros têm e que os ajuda a aguentar as agruras da vida e a enfrentar os problemas com um sorriso nos lábios.
Afinal, da alegria à tristeza vai apenas um pequeno passo.
domingo, 17 de janeiro de 2010
E se...

Neste início de 2010, um dos países mais pobres do mundo não teve tanta sorte. Cerca das 17 horas (hora local), de dia 12 de Janeiro de 2010, a terra tremeu violentamente e um país ficou desfeito. Ruínas, fome, sede, miséria, pessoas ainda vivas soterradas, que os que se salvaram tentam tantas vezes salvar removendo destroços com as próprias mãos, ameaça de epidemias - é este o cenário hoje, uns dias depois do sismo. As réplicas continuam, as pessoas em desespero vagueiam pelas ruas... e rezam! Cantam, pedindo auxílio divino! O auxílio internacional vai chegando, mas ainda não é efectivo, porque quem melhor podia ajudar, por conhecer o país (como dizia o jornalista Vítor Gonçalves da RTP), são os desaparecidos (mortos) nos destroços, o chefe da missão da ONU no território e o seu adjunto.
Esta noite vi uma reportagem da TV brasileira em que populares e militares brasileiros das Nações Unidas conseguiram resgatar, com as próprias mãos, ainda com vida, uma enfermeira grávida, nas ruínas de um centro materno-infantil. Estava enterrada até ao pescoço e conseguiu sobreviver. Vi ainda numa reportagem da CNN uma menina, que se julgava ter ficado orfã, ser encontrada pelos pais, que se julgavam mortos, numa tenda de ajuda humanitária. São autênticos milagres! Mas senti também uma imensa frustração ao ver uma Escola Profissional em ruínas, onde ficaram cerca de 300 alunos e os seus professores (uma escola como a minha! Com o mesmo número de alunos!!!), sabendo que, se houve sobreviventes, morreram ou estão a morrer de desespero entre os destroços!...
O horror domina aquele pequeno país das Caraíbas. O sofrimento está lá e não se vai embora. Não podem fazer o que eu fiz e dormir até ao dia seguinte, porque não tiveram tanta sorte. E se nós tivessemos tido o azar que eles tiveram??? E se... Afinal nunca país nenhum está preparado para estas tragédias e ninguém pode nada contra a Natureza, embora grande parte do tempo pense que sim...
