
Ser professor, em Portugal, no Brasil, na Austrália, na Espanha, terá decerto vantagens e desvantagens, conforme as especificidades de cada país, mas tem em comum o facto de exigir disponibilidade intelectual e emocional para nos envolvermos nesta profissão.
Eu sou professora por vocação. Foi a profissão que escolhi em consciência e que os próprios testes vocacionais indicavam, portanto faço aquilo para que nasci e tenho muito orgulho nisso. No entanto, de fácil esta profissão tem muito pouco.
Imagine-se o que é todos os dias ter que lidar, neste caso, com adolescentes, com a inconstância, rebeldia e energia próprias da idade. Não podermos dar-nos ao luxo de estarmos muito mal dispostos ou não nos apetecer trabalhar, porque temos na frente vinte e tal, trinta e tal adolescentes que, mesmo bem intencionados, não resistem a discutir connosco o "poder" na sala de aula. Outras vezes temos que ter a capacidade emocional de aguentar as tragédias das vidas dos nossos alunos (e cada vez há mais!). Somos professores, pais, mães, padrastos, madrastas, irmãos, irmãs, psicólogos, assistentes sociais e até enfermeiros, conforme as circunstâncias e, tantas vezes, somos tudo isso num só dia. Além disso, somos homens e mulheres com as suas próprias vidas, grande parte com filhos, com família, com problemas, como todos os outros mortais. E mais, o nosso trabalho não fica na escola, ao fim de um dia de trabalho, e não falo só de testes, fichas, textos e trabalhos que nos acompanham em pastas carregadas, falo sobretudo da carga emocional que connosco trazemos, que, não raras vezes, não nos deixa dormir.
A minha profissão, a profissão de professor, tem toda esta carga, mas é também compensadora, quando a exercemos com gosto e vemos os "nossos meninos" crescerem, voarem, seguirem a sua vida e voltarem para nos dizerem que venceram!
Entre tantos e tantos exemplos estou a lembrar-me da Cláudia, da minha Direcção de Turma de há alguns anos, de um Curso de Hotelaria, que nós, os professores, tantas vezes duvidámos que concluísse o Curso devido às grandes dificuldades de aprendizagem que tinha e limitações a nível cultural - o mundo dela circunscrevia-se à região onde se situava a aldeia e depois a Escola. Ainda me lembro dos seus olhos brilhantes a mirar o Rio Tejo quando fomos numa visita a Lisboa, ela que vivia numa aldeia a cerca de 70 km de Lisboa só tinha ido à capital duas vezes com a escola, em anos anteriores, e nunca tinha visto o Tejo. Pois a Cláudia lutou, trabalhou muito, mas muito mesmo, a pouco e pouco foi conseguindo e, com imenso esforço, terminou o Curso. Foi uma vitória! Começou a trabalhar num café, a fazer muitas horas e ganhar muito pouco, mas sempre com um esplendoroso sorriso. O tempo passou, os anos, alguns (talvez uns 4 ou 5) e eis que me liga uma amiga e me diz que foi ao café onde a Cláudia trabalhava e lá estava ela com um imenso sorriso - é actualmente dona do café e tem feito já vários cursos de formação (Higiene e Segurança no Trabalho, Inglês e Comunicação). Fiquei FELIZ, orgulhosa! A minha menina venceu! Um destes dias vou ao seu café dar-lhe os parabéns e um grande beijo!
Não resisto a falar ainda de mais um dos "meus meninos" - o João. Quando o João entrou na "minha" Escola, era uma rapaz simpático, terno e com muitas dificuldades de expressão escrita. Foi sempre simpático e terno, amigo do seu amigo, disponível, sempre pronto a ajudar os outros (ou não fosse ele escuteiro), excelente profissional nos Estágios e com um coração de manteiga. Com dificuldades mais específicas, o João foi progredindo e chegou ao fim do seu Curso. Depois, com todo o mérito e muito esforço, entrou na Faculdade. Foi para longe de casa e da nossa escola e às vezes, na internet, lá o encontro, ao princípio, com muitas saudades do colinho e do mimo daquela família que é a nossa escola. Vem-nos visitar frequentemente e é sempre recebido com sorrisos sinceros como o dele. Neste momento, está em Espanha ao abrigo do programa Erasmus. Mais uma vez está-lhe a custar, mas, tenho a certeza, mais uma vez sairá vencedor. Tem ainda muito que crescer e vencer, mas eu tenho já muito orgulho nele e acredito que chegará onde quiser.
Estes são apenas dois exemplos por que considero que vale a pena ser professor. Apesar do desrespeito dos governantes, da incompreensão de alguns pais, do quase desprezo da sociedade, são os meus alunos que me fazem continuar a acreditar no que faço.
Sou professora por vocação e de coração!
PS - peço desculpa ao promotor desta blogagem Valdeir Almeida do blog "Ponderantes", pelo atraso na "postagem", mas isto de ser professor dá mesmo muito trabalhinho :)