
Ao ler no blog da Marta (http://havidaemmarta.blogspot.com/) o texto que ela escreveu sobre Chacim, a aldeia da sua infância, veio-me à memória aquela que foi a aldeia da minha infância - Angeja, concelho de Albergaria-a-Velha, distrito de Aveiro.
Para que se perceba melhor o que essa aldeia significou na minha vida, há que dizer que sou alfacinha de gema. Nasci em Lisboa (onde grande parte dos lisboetas nascem - na maternidade Alfredo da Costa), os meus pais são de Lisboa, os meus avós paternos são de Lisboa e o meu avô materno também. Assim, só a minha avó materna era de Angeja. "Ir à terra" significava ir à terra da minha avó, onde, na minha infância, vivia a minha bisavó (uma mulher de armas que construiu a sua casa aos 60 anos).
A aventura começava em Santa Apolónia, apanhávamos o comboio com destino a Aveiro. Antes do comboio partir (que era uma coisa que me afligia, porque tinha sempre a sensação que ia partir sem entrarmos todos e havia também sempre quem entrasse depois do apito de partida), dizia eu que, antes do comboio partir, ecoavam por Santa Apolónia todas as estações e apeadeiros, anunciadas aos altifalantes. Era uma viagem algo longa, no inter-regional, com compartimentos julgo que para 6 pessoas cada um. Os meus pais ou os meus avós (conforme com quem iamos) levavam lanche para a viagem. E lá íamos, cruzando-nos com muitas pessoas diferentes, que saiam e entravam à medida que o comboio parava nas estações ou apeadeiros previamente anunciados. Às vezes, havia atrasos e demorávamos mais tempo, mas lá chegávamos a Aveiro (mais uma vez a minha aflição de que não tivéssemos tempo de sair todos antes do comboio seguir viagem). Em Aveiro, apanhávamos a camioneta para Angeja e saíamos na praça central da aldeia. Depois, o caminho fazia-se a pé, até ao fundo da Rua da Agra, onde encontrávamos o portão verde da casa da minha avó Joaninha (a minha bisavó Joana).
Eu gostava de lá chegar, de dar um beijinho à minha bisavó, que entretanto tinha matado um "pito" para fazer uma canjinha. Era uma casa simples, mas acolhedora, com um "aido" sempre com flores bonitas, um limoeiro e uma horta. Havia naquela casa apenas duas coisas de que eu não gostava - a casa de banho era apenas uma espécie de sanita improvisada, tendo por baixo palha e os dejectos eram aproveitados para estrume, e tomava-se banho (no Verão) na água gelada do poço que havia no "aido".
Angeja tinha cheiros característicos, o do rio Vouga (já poluído na altura) e que ainda hoje se mantém e o do estrume (hoje quase desaparecido), já que os carros de bois eram presença constante nas ruas, muito mais do que os tractores. Uma coisa que me divertia era o facto de achar que toda a gente daquela terra era da minha família, já que muitos me eram apresentados como primos.
Tenho muitas memórias de Angeja, uma aldeia do litoral, não muito longe da cidade, que acabou por ficar com o IP5 mesmo à porta e hoje tem a A25. Um post não chegaria para relatá-las todas, mas invoco apenas algumas: eu e o meu irmão a cavarmos a horta da avó Joaninha; o dia em que levei, com um amigo, cabras a pastar e a cabra que eu levava quase me fez cair, porque corria mais que eu e eu ia de socas; o meu irmão a descer a "vela" (=viela) numa bicicleta maior do que ele, sem que ele chegasse aos pedais, mas feliz da vida, a grande velocidade (tendo em conta o tamanho dele) e eu com o coração nas mãos; os meus amigos, filhos de vizinhos da minha bisavó, com quem brincavamos e cujo sotaque (trocar os "vês" pelos "bês" - a "baca") eu tratava de imitar pouco tempo depois de lá estar; a ponte de madeira que atravessava o rio e de onde se viam as bateiras; a casa da prima Maria Idália, que nos recebia sempre com um sorriso luminoso, no seu mini-jardim sempre florido, e onde eu gostava de ir ver as telenovelas, porque a minha bisavó não tinha televisão... e tantas tantas outras. Muitos anos depois, quando a minha bisavó faleceu, a casa foi vendida.
Voltei lá há pouco tempo (é lá que a minha bisavó está sepultada e foi para lá, para junto da sua mãe, que a minha avó foi, quando partiu, em 2007) e Angeja está diferente. Há mais carros, mais tractores, algumas das pessoas da minha infância já partiram, algumas lojas mudaram de donos e de actividade, as casas da rua principal estão velhas, mas a zona do rio está mais bonita.
Hoje, Angeja já não é a aldeia de outros tempos, mas é e será sempre a aldeia da minha infância, Angeja é "a terra", é um conjunto de memórias felizes que fazem parte de mim.